segunda-feira, novembro 19, 2007

Alucinações Musicais

Por Paulo César Pereira

A música está em nossas vidas de forma tão intensa e cotidiana que não conseguimos parar para pensar na sua importância.

O mundo é musical, dirigimos ouvindo música, usamos música para expressar nossos sentimentos e é com música que também protestamos. O rock, por exemplo, surgido no início dos anos 50, se apresentava como um reflexo de toda a insatisfação que sentia a juventude do pós-guerra, por aqueles artificiais modelos de vida que propunha o “american way of life”. O rock arrastou multidões e eternizou personalidades, assim como pela primeira vez as pessoas se moveram e dançaram enlouquecidas por um ritmo e um som.

Mas que poder é esse que têm a música a ponto de nos fazer mudar comportamentos, cantar os sentimentos e representar toda uma geração?


Para Oliver Sacks, escritor e médico neurologista em Nova York, que acaba de lançar no Brasil, Alucinações Musicais, “a música, dentre as artes, é a única ao mesmo tempo completamente abstrata e profundamente emocional. Não tem o poder de representar nada que seja especifico ou externo, mas tem o poder exclusivo de expressar estados íntimos ou sentimentos. A música pode penetrar direto no coração; não precisa de mediação”. Através de estudos com seus pacientes Sacks, relata o poder de penetração da música em diferentes traumas e patologias relacionadas ao cérebro, em sua especialidade a neurologia.

Há vários anos vêm sendo desenvolvidos estudos sobre a influência da música e afetações no cérebro humano. Sobre a imensa maioria de nós, a música exerce um grande poder, quer o busquemos, quer não, e isso ocorre inclusive com quem não se considera “musical”. Sacks explica que a inclinação para a música revela-se na infância, é manifestada e essencial em todas as culturas. Essa “musicofilia” como ele mesmo denomina a musicalidade nata, é um dado da natureza humana. Ela pode ser desenvolvida ou moldada pela cultura em que vivemos pelas circunstâncias da vida e pelos talentos ou deficiências que temos como indivíduos.

Ainda sobre os estudos, avanços significativos passaram a ser percebidos no Brasil a partir da década de 80, quando associada à neuropsicologia foi integrado os estudos sobre musicoterapia. Doenças degenerativas do sistema nervoso ou ainda deficiências adquiridas através de lesões cerebrais, como o AVC (acidente vascular cerebral) entre outros passaram a ajudar como tratamentos auxiliares e em muitos casos com eficácia superior aos tratamentos medicamentosos. Doenças como a afasia, que é a perda da capacidade de desenvolver a fala e a linguagem, obtiveram grandes resultados com a musicoterapia, é o que afirma o Dr. Benito Pereira Damasceno, chefe do Departamento de Neurologia da Unicamp e fundador do Centro de Vivência do Afásico.

Para o Dr. Damasceno, problemas corticais difusos, decorrentes de AVC, doença de Alzheimer ou outras causas de demências e síndromes corticais específicas como à perda das funções da linguagem ou do movimento, amnésias ou síndromes do lobo frontal, todas essas doenças têm a colaboração da música como tratamento e podem responder positivamente a musicoterapia por ter áreas do cérebro afetado às quais a relação com a linguagem é fundamental. Ainda para o Dr. Damasceno, a música independe do ritmo ou do estilo “todos os estilos podem ajudar, você não vai tocar música clássica para o caipira do interior, se é de sertanejo que ele gosta”.


O que significa que as respostas aos estímulos musicais podem ser apresentadas independentes das variações. Tanto o rock como a música clássica podem ajudar nos tratamentos.

Daniel Lemos, é medico formado pela Universidade Federal de Uberlândia e estudante de música na Unicamp, além de admirador da obra de Oliver Sacks, explica que a música está relacionada ao nosso sistema límbico e ao nosso hemisfério direito do cérebro, ou seja, o evento musical é processado no nosso centro cerebral lúdico, emocional, não-verbal, e tal relação nos mostram a forte necessidade do ser humano em produzir esse tipo de arte.

Para o Dr. Daniel, o aspecto valorativo pessoal da música diluiu-se nos nossos tempos, “somos obrigados a consumir o que é jogado a força pelos meios de comunicação, nada mais é realmente necessário na música, como qualidade, conteúdo, talento do intérprete, tudo isso é secundário”. Analisando a História do rock, podemos ver toda essa prostituição musical ocorrer com clareza e rapidez, vemos a passagem de uma música oriunda do blues, estilo musical baseado no lamento e tristeza dos negros sulistas norte americanos, até chegarmos à expressão fútil e sem propósito das músicas de rock destinadas aos adolescentes americanos.

A “inexprimível profundidade da música” escreveu Schopenhauer, tão fácil de entender e, no entanto tão inexplicável, deve-se ao fato de que ela reproduz todas as emoções do mais intimo do nosso ser, mas sem a realidade e distante da dor, a música expressa apenas a quintessência da vida e dos eventos. Nunca a vida e os eventos em si.

Para Nietzsche ouvir música não é apenas auditivo ou emocional é também motor “ouvimos música com nossos músculos”. Niestzche interessou-se a vida inteira pela relação entre a arte, especialmente a música, e a fisiologia. Discorreu sobre o efeito “tônico” da arte, seu poder de estimular o sistema nervoso de um modo geral, especialmente durante estados de depressão, ao qual ele mesmo viveu. Falou ainda da capacidade da música em evocar, impulsionar e regular o movimento, para ele o ritimo podia impelir e articular o fluxo de movimentos e o das emoções e pensamentos, o qual era tão dinâmico ou motor como o fluxo puramente muscular.

É claro que diferente da época de Nietzsche, hoje em dia a música está em seus diferentes recursos da modernidade. Podemos sentir e ouvir música em absolutamente tudo que nos rodeia, praticamente todo mundo tem ipod´s, CD´s, celulares e outros recursos, mas Oliver Sacks afirma o papel fundamental da música para aqueles as quais as banalidades da vida normal são imprescindíveis para a continuidade de suas vidas pouco normais.

A música é parte do homem, e não existe cultura humana na qual ela não seja altamente desenvolvida e valorizada. Sua própria ubiqüidade pode banalizá-la no cotidiano: ligamos e desligamos o rádio, cantarolamos uma melodia e não nos damos importância a tudo isso. Mas para quem está perdido na demência, a situação é diferente. A musica não é um luxo, é uma necessidade, e pode ter um poder superior a qualquer outra coisa para devolvê-las a si mesma, e aos outros, pelo menos por algum tempo. Finaliza Sacks.

Marcadores:

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Paulo,

Título sem verbo e link do nome não funciona. Mas o que mais assusta em seu texto é o tamanho. São cinco rolagens no “scroll” do mouse. É verdade que a internet permite matérias de qualquer tamanho – até é possível ler livros on line – mas nesses casos, no seu caso, seria melhor dividir a matéria em dois blocos e fazer um link entre elas. Como num blog isto é um pouco mais complicado o melhor seria fazer uma matéria e outra complementar.

Vamos ao texto: sua matéria não tem gancho. Você começa com se estivesse escrevendo um artigo e continua até o fim assim. Faz inúmeras afirmações tipo “o mundo é musical”, “o rock arrasou multidões”, “é um reflexo de toda a insatisfação que sentia a juventude”. E eu vou repetir o que já escrevi em outros comentários: uma reportagem é para reportar o que alguém disse, escreveu ou pensou e não para expressar a opinião do repórter. Se o repórter tem uma opinião, deve fazer como todos os outros mortais: escrever um artigo. E essa não é a proposta deste blog.

Não entendi por o nome do dr. Benito está em destaque.

Paulo, se eu tivesse pedido um artigo você teria sim um boa nota, pois foi o que escreveu – você chega até a dialogar com Nietzsche... Uau!!! Mas o desejado nesse espaço era uma simples e singela matéria com um bom gancho, um lide, uma fonte e um personagem que ocupasse mais ou menos cinco parágrafos – e você deixou a desejar.

Regular (-)

Adauto Molck

9:57 PM  
Anonymous Anônimo said...

O tema da matéria é interessante e você o explorou bem, complementando sua idéia com a de outras fontes.
Achei sua matéria muito extensa e com poucos links, o que tornou o texto cansativo.

Pamela

11:15 PM  

Postar um comentário

<< Home